14 de janeiro de 2014

A última da viagem

em Bate-Papo

Pra fechar o ciclo na terra do diamante, mais alguém que conheci e que me fez pensar que esse mundo é mesmo massa. Que a coisa tem jeito. Na terra de Vovô, Andaraí, fomos fazer um passeio longe das cachoeiras. É que nessa região há pequenos “Pantanais” com direito às garças, vitórias-régias, borboleta voando ao teu lado e peixão batendo na canoa. Pra entrar no local conhecido como Pantanal Marimbus, a gente passa por uma portaria, meio lanchonete, meio lojinha de conveniência roots com várias artigos em pedras. À beira da estrada, mesmo. Lugarzinho simples, que serve um caldo de cana maravilhoso e famosa esfiha de palma (Deliciosa!!). Quem toma conta do lugar é Seu Lôro e é dele que vou falar neste post.

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Na volta do passeio, torrada de sol, parei pra comer. Fiquei descansando e ouvindo aquele barulhinho bom do vento batendo nos móbiles de lâminas de pedra. E fui perguntando pra seu Lôro um monte de coisa até descobrir sua história de amor pela arte, craft, artesanato. Esse jovem senhor que serve os turistas tão educadamente na alta temporada, também tinha uma história pra contar.

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Seu Lôro conversa que nem um papagaio e é lógico que eu adorei, pois converso tanto quanto ele. Mas o apelido não tem nada a ver com o bicho e ele também não sabe como ganhou. Só sei que Florisvaldo Ramos é o nome dele e todos aqueles objetos de pedras, algumas mais finas que outras vieram da mão do atendente da lanchonete roots. Seu Lôro quando jovem foi lavrador, depois carpinteiro e pedreiro. Por conta da habilidade manual em todos estes ofícios, pegou a família e se mudou pra cidade de Andaraí. Se mantendo como pedreiro e carpinteiro, apareceu uma oportunidade que lhe chamou a atenção. Era a CBPM – Companhia Baiana de Pesquisa Mineral, que por mais uma vez chegava à Chapada Diamantina, para pesquisas, cursos e explorações. Isso há mais de uma década.

Um dos cursos era o de Lapidação e seu Lôro, curioso que só, tratou de fazer. E se apaixonou. Percebeu que a mesma habilidade que tinha com as mãos enquanto carpinteiro, tinha pra lapidar e produzir belas formas em minúsculas pedras. Terminando o curso de Lapidação, já emendou no de Montagem com Prata e Ouro. Era considerado o melhor aluno. O curso, oferecido em etapas, já seguia pro final, quando o instrutor enviado pela CBPM morre em um acidente de carro em uma estrada perigosa entre as comunidade rurais da Chapada. Mais de 30 alunos ficariam sem concluir o curso, pois a CBPM não tinha previsão de quando outro instrutor chegaria ao local.

Daí seu Lôro criou coragem e pediu à Direção do curso pra assumir a última etapa. Ele já tava craque e sabia que podia compartilhar seus conhecimentos. Dito e certo. Seu Lôro pegou a turma pela mão e com essa troca de experiências, fez todo mundo se formar com louvor. Inclusive ele. Todos receberam o diploma e viraram artesãos. Seu Lôro mal esperou o curso terminar: financiou equipamentos e montou em casa, seu ateliê pra criar pequenas peças com as pedras que encontrava na região. Eram casinhas, móbiles e outros objetos pra decorar. Só que o amor era tanto, que a produção cresceu e ele se viu doido pra vender tudo aquilo, mostrar o seu trabalho. Fez de tudo pra montar sua barraca, mas cadê grana? Foi aí que um amigo fez a proposta: ” Troco teu rádio pela minha barraca” Fechado! O rádio de Seu Lôro foi embora e chegou uma barraca grande. Foi assim que ele começou a vender.

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Mas ele não tava tão satisfeito assim. Começou a sentir falta de algo que tanta gente nem saber o que é: ele queria dividir, compartilhar o que sabia, trocar ideias e conhecimento. Juntou a fome com a vontade de comer. A prefeitura, careca de saber do potencial da região e vendo que seus moradores estavam se capacitando, montou uma Unidade de Artesanato Mineral. Quem virou professor? Lorô da Bahea! E a frase dele resume: “Foi a melhor época da minha vida. Descobri que o que mais gosto e sei fazer na vida é ensinar artesanato com pedra”.

O curso era de 8 horas diárias e a turma formada por 40 alunos. Seu Lôro foi formando monitores e mais grupos de alunos apareceram. Mas o investimento sumiu e ele, como tantos outros, não podiam mais tirar do bolso pra colocar na Unidade. Depois de um ano de curso, a Unidade fechou. Tá fechada desde então, quase dez anos desativada com todos os equipamentos lá dentro e um monte de gente sedenta de aprendizado.

Seu Lôro lamenta até hoje, mas não parou de trabalhar com o que ama. Assumiu a lanchonete roots do Pantanal Marimbus e continua a fazer trabalhos como carpinteiro pra garantir parte da renda. Mas carrega uma bolsinha com alicates e pedras. Peças lindas em prata e ouro com pedras como Jade Verde, Jade Azul, Hematita, Quartzo leitoso e por aí vai. O material que não consegue aqui na Bahia, pede pra um amigo em Minas, enviar. A filha dele o ajuda a vender pra turistas em outras cidades da região e é assim que ele permanece alimentando o que mais gosta de fazer.

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Adorei terminar os posts sobre minha viagem pra minha terra. Amo aquele lugar e o que vem dele. E em breve a gente tá de volta, porque eu adoro praia, sal e sol, mas amo mesmo é mato, cheiro de flor, cachoeira e passarinho. Engraçado que por várias vezes, à beira de uma estrada específica, a gente via uma placa ” Mundo das Artes”. Só depois dessa conversa descobri que aquela era a antiga barraquinha de Seu Lôro que virou um pequeno estabelecimento. O nome veio da observação de um dos cinco filhos: ” Êê pai, o senhor só fica aí viajando nesse seu mundo das artes…”

Boa viagem, Seu Lôro. Só a gente sabe como esta viagem nos faz bem! Obrigada!