6 de novembro de 2015

E quando sonhos saem do papel?

Em DIY

A gente comemora e compartilha, claro. Mas antes, eu preciso te dizer que a ideia é antiga, acho que mesmo antes do blog. Já realizava oficinas criativas com crianças sempre que podia aqui mesmo no apê, mas muito mais por brincadeira, minha e das crianças, que um projeto. Faltava tomar corpo, botar no papel e organizar o que fazer. É algo tão espontâneo, pensava eu. Mas hoje entendo que nossas habilidades também nascem do acúmulo do que somos. E ser filha de uma alegre professora de crianças e jovens faz parte dessa bagagem. É muita influência e serve demais como inspiração, creio.

Se tá ligado no movimento sexy, tô de brinks, se tá comigo por algum outro canal,  há de saber que sou aluna da turma 2015 do DECOLA! LAB da querida Rafa Cappai. O empreendedorismo criativo tem mudado a vida de tanta, mas tanta gente e eu entrei pro time. Vou falar mais dele por aqui quando acabar o curso, tô na retinha final. Não é simples, não é fácil e requer um esforço muitas vezes bem maior que aquele que a gente acha que consegue fazer. Mas faz. Por enquanto sigo modelando meu negócio, organizando o trabalho grande e diário pra isso, estudos, planos, realizações e projetos. E alguns já indo pro mundo.

“Pequenos Conteúdos Criativos” é o nome dado a um desses: oficinas gratuitas, pagas e em vídeos. A ideia é compartilhar pequenos projetos realizáveis de faça-você-mesmo, decoração, brincadeiras e outros temas para públicos diferentes. Crianças, jovens, adultos, idosos. As oficinas gratuitas foram as primeiras a saírem do papel e são só para crianças. Por enquanto.

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Há um mês, as tardes de sábados são ao lado delas. Crianças que vivem situações tristes, super difíceis, dessas que a gente infelizmente conhece e outras tantas que nem imaginamos até conhecê-las, ouvir delas. Dessas que a gente se pega a refletir, sente até culpa e pensa em como tentar mudar um pouquinho só o que está ao redor. A casa onde trabalho já realiza outras atividades com elas e com as famílias delas, tudo de forma gratuita. É mantida por doações. O espaço é simples, mas tem tudo que preciso: um chão e sombra 😀

Tudo começou quando fomos doar um dos nossos violões pra um querido amigo músico que promove as oficinas de música nessa mesma casa. Quando entrei e vi aqueles pequenos, não tive dúvida, era ali. Era ali que ia botar em prática o primeiro projeto do Ateliê Casa de Maria pós/durante DECOLA!LAB.

Na semana seguinte, comecei. Os menores ficam comigo e os maiores com outros professores. O meu mais novinho tem 5 anos <3 A turma varia entre cinco e dez crianças. Os maiores ajudam os menores muitas vezes, esta é a regra nascida de muita boa vontade para alguns, para outros, nem tanto. Aos poucos o diálogo é aceito. Resistência mais que compreensível para quem vive situações duras.

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Com gravuras em papel, comecei com noções de costura, para todos. Uma aula de concentração, coordenação motora e memória. Eles ficaram super envolvidos. Grudo os menores comigo, no meu colo pra eu ficar atenta ao uso da agulha e tesoura por eles.

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Senti cada olhar atento, curioso com a novidade e também com a perspectiva de criarem, por eles mesmos. No final, soube que ali estavam os mais danados e que até eles ficaram quietos 😀 Nas semanas seguintes, mais atividades. A minha turminha migrou pra o andar de cima e a outra turma, continuou no espaço anterior com a outra trabalhadora.

No último sábado por exemplo, o Pequenos Conteúdos Criativos chegou por meio da atividade “Amarrando meu sapato” que tinha visto há tempos pela net, mas não lembro onde. Mas fiz do meu jeito. Só com papelão, tesoura, barbante e canetinha, as crianças aprenderam como passar o cadarço e amarrá-lo. Primeiro, marcamos os pés de cada um com canetinha. Deixei que elas mesmas fizessem, uma na outra.

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Depois, sugeri uma quantidade de furinhos, fiz com tesoura e eles complementaram, abrindo os furos com lápis. Olha a mãozinha! Zá mordo esse tlein, zá! Aperto e beijo muito!

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Daí em diante, ensinei como passar o barbante e fazer o laço do sapato. Eles fizeram em seguida e a atividade foi desenrolando. Erravam, faziam de novo, tiveram autonomia, incentivo em uma brincadeira que ensina, auxilia o desenvolvimento intelectual e coordenação motora.

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Cada um identificou o seu sapato.

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E fizeram a sua maneira, deixando solta a imaginação e a graça!

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Antes de qualquer coisa, a gente tá se divertindo muito. Dou boas risadas com eles. Como inteligentes, já conhecem o que é o livre-arbítrio, mesmo sem consciência tão clara ou coesa das escolhas e influências para as mesmas. Mas sendo assim, eu tento, nessa horinha pouca, trocar o que é bom, o que é do bem e vem do nobre com eles. Não há espaço para coitadismos. Há pequenas normas, algumas regras e ensinamentos básicos para toda a criança desenvolver seu senso moral também, mesmo que por vezes saiba que esse não é o meu papel principal na vida deles.

Mas se puder influenciar nisso, com exemplos, mesmo que de forma miúda, me alegro. Também não é assistencialismo barato e oportunista. É uma troca. Conversamos sobre o bairro onde moram, a família, escola, da tarefinha de casa, o que eles sentem, desejam, pensam. O que ficou faltando em um sábado, fica pra o próximo e o vínculo só aumenta. Falamos do futuro, das escolhas e de opções melhores para nós. Para todos nós. Eu dou a eles uma horinha de tudo o que o universo criativo oferece, digo que há opções nas mãos deles e eles me dão em troca esperança, fé, bom humor, doçura, humanidade e corações enormes. Me ensinam muito mais que o contrário. Por enquanto é isso, mas já é um começo. A ideia é continuar com as oficinas, em parceria com empresas, escolas, eventos e também em vídeo, em breve.

Que o “Pequenos Conteúdos Criativos” antes de ganhar asas, tenha pés largos e firmes pra caminhar por aí, ter força pra pegar impulso e voar bonito. Vou só à princípio, mas sei que na caminhada surge quem deve pra tudo fluir pro melhor.

Beijo grande!