20 de fevereiro de 2018

Férias no Chile – Conhecendo o Atacama – Final

Em Roda, menina!

Ô gente! Chegaram até aqui? Então vamo terminar de conhecer comigo o deserto do Atacama. Ai, ai <3

Pra concluir os passeios por agência (porque depois seguiríamos por conta própria) acordamos às 4h da manhã pra esperar a van. Logo de cara, xoxei: a guia não era mais Ravi 🙁  Era Corinne, uma senhora francesa e guia. Guia no Atacama. É claro que isso não ia dar muito certo. Além disso, todo o grupo era formado por nós, brasileiros e a maior parte dele de gente mal educada e nada simpática. Depois de duas horas de viagem, ainda com o sol nascendo e num frio de -2 graus, a quase cinco mil metros de altitude, começamos a ver a terra acordar. De verdade. Vimos de perto os gêiseres, os Gêiseres del Tatio!

 

GÊISERES DEL TATIO

Que incrível! Sonhei também em ver um dia esse fenômeno da natureza de perto nas aulas de geografia e mais uma vez, a vida me presenteou com essa chance. E claro, ralamos pra caramba pra ela nos presentar assim 😀 Tudo é delimitado por questões de segurança, afinal a água que sai das fendas chega à temperaturas entre 70°C e 100°C além do vapor quente ser rico em um tipo de ácido. Há um terma com água a 28° que faz parte do passeio, mas quem tiraria quatro camadas de roupa num frio negativo pra tomar banho morno era outra… 😀 É claro que nos afastamos do grupo, também não podíamos contar com a Corinne pra saber mais da história de El Tatio, então fomos rodar sozinhos e observar as maravilhas daquele lugar. Não vou mentir que ficava de butuca em outros grupos de tour pra ouvir as informações e nessa, descobri que esse é maior campo de gêiseres da América do Sul e o terceiro maior do mundo.

Também descobri por conta própria que “El Tatio” que dizer “Avô que chora” na língua atacameña e isso se deve ao fato de ter uma montanha que o povo local acha parecida com um perfil de um homem. Quando, durante temperatura mais quentes, a neve do topo dessa montanha derrete e aí as “lágrimas” se forma 😀 O lugar já foi explorado pra retirada de energia geotérmica, mas depois de um acidente, o projeto foi abandonado. Essas ruínas de exploração era bem comum de ser vista por toda a Antofagasta.

Tomamos café ali mesmo, tudo muito gostosinho com pães caseiros. Com o sol já no alto e o clima mais morno, seguimos pra o Rio Putana e suas plantas aquáticas e suas aves nativas.

Depois daí fomos ao povoado de Machuca. Tava achando um desaforo uma guia não saber pê éne do que a gente perguntava e tratei de perguntar mais. Mas vi que não tinha jeito, a falta de informação da mulher era um absurdo. Fiquei sabendo muito pouco sobre Machuca, mas descobri que apenas cinco famílias moravam ali no momento e que viviam do turismo. Antes, o povoado era um local de pastores que criavam Lhamas pra o abate e consumo, como até hoje é feito em outras regiões. O povoado têm algumas casas feitas de adobe e telhado de palha. De lá voltamos pra San Pedro e a guia fez o que ela fez de melhor: gritar que tinha animais fofinhos na estrada, numa mistura de sotaque francês, espanhol e português “Vicunháá à derrêtcháá!” O passeio durou uma manhã, ainda bem, mas é claro que foi inesquecível. Mas já tinha dado, a partir daí seguimos só nós dois por outros picos incríveis.

 

TOUR ASTRONÔMICO

Pra fechar o pacote de passeios por agência, nesse mesmo dia, à noite fizemos o M Á G I C O tour astronômico. Várias agências fazem o passeio e centros de pesquisas espaciais também, mas seja qual escolher, você vai ver um céu como nunca antes visto! Eu tinha visto céus bonitos, mas como o do Atacam eu nunca vi, mesmo. É poder ver a olho nu um braço da nossa Via Láctea, milhões de estrelas, constelações, planetas e a poeira disso tudo em volta. Vê à esquerda da foto esse aglomerado branco? Diga “Reilou, Via Láctea!” pois é ela. Vimos as Nuvens de Magalhães, galáxias menores, essas duas manchinhas brancas um pouco acima da minha cabeça e da de Ró, percebe? Vimos a Constelação de Órion o seu cinturão, popularmente conhecido como as Três Marias, vimos também a gigante vermelha Betelgeuse considerada uma estrela velha e que está morrendo, mesmo com o brilho ofuscando a nossa vista pelo telescópio. Gente, vocês tem noção que de algumas estrelas a luz que nos chega, nos chega 55 séculos depois? 55 séculos!! Por isso que se diz que olhar pro céu é o ver o passado. Caramba, meu povo, eu vou lembrar desse dia pelo resto da minha vida!

 

PUKARÁ DE QUITOR

Os passeios que fechamos por agência foram aqueles que não encararíamos ir só, tipo, alugar um carro e viajar por duas horas Atacama à dentro. Não, não dá, nem indico. As estradas são desertas, quase nada de sinalização é pra quem conhece mesmo. Já passeios mais próximos fizemos sozinhos e ainda por cima, de bike! Alugamos duas e os equipamentos de segurança na “Los Alpes” e fomos pra fora de San Pedro conhecer Pukará de Quitor.

Depois de uma trilha de bike leve de 3km por locais super bem sinalizados (então não precisa ter medo, pode ir!) chegamos à região que foi uma fortaleza dos primeiros povos atacameños. A caminhada é mais pesada, mais de duas horas de subida, subida, subida… Mas é de arrepiar passar por esse lugar.

É que aí era onde os povos atacameños se instalaram pra defender sua terra e seu povo da invasão espanhola e por um tempo, dos incas também. É um sítio arqueológico do período pré-colombiano e na década de 80 virou um monumento nacional. Eles foram criando casas por entre os picos durante os anos, moravam dentro das cavernas e conheciam tudo como a palma da mão. Por isso os espanhóis demoraram 20 anos pra tomar o lugar dos atacameños. A histórias que vamos lendo ao longo do caminho é admirável, mesmo triste, sabendo que mais um povo foi dizimado com crueldade. Mas a cobiça não era só parte de uma cruzada religiosa, a região de San Pedro é um oásis (taí, mais do que via nos livros!) com o rio San Pedro passando, além de minério, logo, uma região valiosa pra os exploradores.

Ainda é possível ver o que sobrou da fortaleza mesmo depois do terremoto que mudou tudo de lugar. E é mesmo muito alto, minha gente, muito! A gente vai subindo, parando, respirando, porque o calor é forte e a secura é enorme. Foi mais uma etapa da viagem que compartilhei por vídeo lá no Instagram. Ao chegar no topo ficamos sem palavras. Dá pra ver o Valle de La Muerte e suas dunas, todas as formações rochosas milenares… É um lugar que emana vida, energia, força… É claro que lá de cima eu chorei e agradeci.

A subida é intensa e lá no topo tem um monumento homenageando os atacameños. Como também uma pequena cobertura pra gente observar tudo com muita paz e mais aliviados do sol.

Fizemos mais uma foto pra emoldurar…

E uma que, depois de ver tudo, entender tudo, sentir aquela história seria impossível não fazer! É um…

… É dois…

…É três e já!!

Oooo gente! Eu quero entrar nessa foto de novo! 😀 Como é bom viver tudo isso pra poder lembrar! Descemos devagar e extasiados, mas a energia de Pukará de Quitor é impossível de descrever e ela tá por todo o lugar. Antes de pegarmos a bike, passamos por uma pracinha, a Plaza Quitor feita há pouco tempo e é uma entrada pra uma das cavernas onde os atacameños se escondiam durante a luta de resistência. Ali ainda, o pé secular de Algarrobo toma conta do lugar. Uma entidade, por assim dizer, que a pachamama nos oferece. Único.

Toda essa energia de Pukará de Quitor te abraça, você não sente nenhum tipo de medo, receio, nada… Você sabe que a mãe terra é sua guia superior. É algo mesmo que não dá pra falar, só sentir. E eu gosto de sentir, tocar, cheirar, cada canto durante essas experiências. Porque é daí que a nossa essência é.

“Pô, Ró, tu me flagrou aqui?? Pô…” Xatiada depois da foto. Agora não mais 😀

 

Pegamos as bikes de volta, num ritmo bem devagar de tanto deslumbramento com esta vivência em Pukará de Quitor. Ainda passeamos por ruas mais distantes de San Pedro até a hora do jantar e devolver as bikes. Nem lembramos do cansaço. A única coisa que posso te dizer se um dia você for à San Pedro é: vá à Pukará. Simplesmente vá.

QUEBRADA DEL DIABLO

No outro dia, alugamos de novo um bike. Acordamos mais tarde, mas não tão tarde, porque não dá pra ficar no quarto do hostel sem ventilador com o sol do deserto, no verão, lá fora. Mas descansamos bem. Abastecemos as mochilas com nossos lanches de novo, muita água, muito protetor pra todas as partes do corpo, incluindo mucosa nasal e olhos e partimos pra alugar uma bike de novo. Desta vez pegamos um mapa e uma trilha de 8 km também sinalizada até a Quebrada Del Diablo.

A Quebrada é um desfiladeiro por onde podemos passar por todo ele de bicicleta. A energia é parecida com a de Pukará. Você se vê dentro de formações, num silêncio profundo, ouvindo apenas a música feita pelo vento. Há sombras por toda parte e a gente entende a altura das formações contrastando com o céu. Você entende também, por mais uma vez, o seu tamanho: minúsculo. A trilham mesmo mais longa é uma delícia, o que pesa é só a parte de areia fofa pra pedalar, mas tudo é recompensado durante a travessia do rio San Pedro e com as paisagens, como a árvores partida. Você pedala por tempos e tempos, horas e horas dentro do desfiladeiro. Não fomos até o Valle do Catarpe, preferimos ir aproveitando o caminho e valeu muito à pena.

Voltamos de lá no cair do sol mais uma vez. Um pouco mais cansados, mas com a mesma sensação de ” Universo, cara! Muito obrigadaaaaaa!!” 😀 Devolvemos a bike, tomamos um banho e deixamos tudo arrumado, pois iríamos embora na tarde seguinte. Fomos aproveitar a noite, ouvir música gostosa, bebericar um pouco e poft, capotamos mais uma vez na cama.

 

MUSEU DEL METEORITO

Outro a experiência que eu insisto: não subestime, simplesmente vá! É incrível saber o que se passa naquele lugar, ou melhor, no céu e também no solo dessa região. É mesmo quase mágico saber a quantidade de fatos e histórias. Na parte interativa, a instrutora avisa “Vocês vão tocar, talvez, na coisa mais antiga que vocês vão ver na vida” 😀 E de fato. Quando poderia tocar num pedaço de meteorito de milhões de anos atrás?

E mais mágico ainda foi que, depois de deixar tudo arrumado, as mochilas na recepção do hostel, saímos passeando com calma por San Pedro em direção ao Museo. No meio da Caracoles lotada de gente, encontramos um casal de amigos queridos! Que sintonia boa! Tau e Nati são adoráveis. Tau, Tarcísio é nosso amigo amado desde a época da universidade, no curso de jornalismo. Vivemos um monte de coisa boa juntos na mesma sala e é dessas amizades que sempre amamos reencontrar e Nati, sua esposa querida que já conhecíamos e com quem ele compartilha a vida há uns bons anos em Brasília, agora, com um filhote <3 É claro que resolvemos visitar o museu juntos, depois almoçamos e o que rolou foi risada. Não podíamos ir nos despedindo do Atacama com uma energia melhor.

O pessoal seguiu pro seu primeiro dia de Atacama e nós pegamos o transporte de volta pra Calama. De lá voamos sem conseguir dizer muita coisa. A gente só se olhava e agradecia. Quando eu dizia que sonhava em conhecer um deserto não era só por ter adorado a matéria de Geografia durante a minha vida escolar. É que tinha essa sensação ainda durante a minha pra universidade. Nesse período eu dividi um apê com Brena. Bê era uma amiga querida com quem morei durante um tempo enquanto estudante de jornalismo. Foi a primeira amiga que chorou ao meu ouvir canta e tocar, bem mal, meu violão simples. Em um aniversário meu, ela me presentou com um cd do Emmerson Nogueira com versões acústicas de músicas gringas. Eu amei. Viciei em Emmerson Nogueira e em seu violão de aço. Viciei ainda mais na canção “Horse With No Name” da década de 70, do América, grupo britânico de rock indie que me guiava por entre acordes a uma jornada por um deserto cheio de sons, desconhecido, com céus, nuvens, passáros e aquilo tudo me protegeria das dores. Me imaginei dentro dessa música, desse deserto durante anos. Agora, não mais.

Depois de cinco dias de Atacama, ainda ficamos por um tempo em Santiago (foi quando fomos pra Valparaíso e Viña Del Mar) Voamos de volta com paz, gratidão e alegria. Fomos presenteados com a vista inesquecível das Cordilheiras dos Andes ainda com neve.

Obrigada Atacama, obrigada Chile por todos os ensinamentos. Obrigada ao meu companheiro, o parceiro mais que perfeito pra tudo isso e mais. Obrigada a nossa família e amigxs por cuidar dos nossos anjos quando saímos pra mais uma aventura. Obrigada por todos e tudo que cruzou o nosso caminho. Tudo. Até a próxima aventura.