14 de fevereiro de 2018

Férias no Chile – Parte II

Em Roda, menina!

Gente querida! Voltamos à programação normal pós carnaval. Não que estivesse pulando nas ruas ao som dos repetitivos hits baianos, estava organizando os capítulos de estudos dos nove livros que já chegaram por aqui só esse ano. Eu sei, eu sei, é demais… Confesso: tenho problemas, gosto mesmo de comprar livros, puxei à mainha, ex-integrantes de clubes de livros, mas que hoje anda viciada em whatsapp (Nãooooo, até a minha mãe!) enquanto eu, odeio essa ferramenta. Certo. Pós isso tudo, acho que agora o ano engrena por aqui. Enquanto ouço o carro de som na rua avisando o sumiço de Doly, a cadelinha que têm problemas cardíacos pelas redondezas relembro mais etapas dessa viagem que continua a me faltar adjetivos.

COMIDA

Penamos, mais uma vez. Explico: somos dois vegetarianos, eu, com intolerância à lactose de nascença e ainda não sou fã de ovo. Comer é sempre uma ação cheia de planejamento quando a gente sai de casa. Então, sempre fazemos uma feirinha em algum lugar, com muita oleaginosa, frutas, sucos, pães, alguns sanduíches (se eu estiver munida de um Lactosil ou queira assumir o problema de comer queijo e manteiga) e por aí vai. Mas se você é carnista, não há problema, esse tipo de dieta é bastante abundante no Chile. Além disso, achamos os preços dos restaurantes altos. Alguns, altos mesmo. Como citei no post anterior, padrão Paris quando a gente converteu. Então, fazíamos apenas uma refeição fora por dia e encontramos lugares bem bacanas pra nós dois. Sem falar que o dinheiro rendeu pra poder rodar mais. Em Santiago, o melhor lugar onde comemos foi nas Plazas de Bolsillo, que também citei no post anterior.

Além disso fizemos questão de conhecer os mercados municipais. O Mercado Central é grande, estrutura boa, alguns preços bem altos. Mas escolhemos comer no mercado La Vega, menor, menos turístico, menos cheios e com cantos escondidos preciosos. Descobrimos por meio de uma brasileira que já morou no Chile, o restaurante Léon de Judá na parte superior do La Vega e foi uma delícia. Opção sem carne, prato grande, super bem temperado e preço justo. Adoramos.

Pratos recheados de cogumelos e legumes sempre são os nossos preferidos em viagens. E depois de comer, um descanso rápido em algum parque era uma delícia.

PARQUES

Os de Santiago são incríveis, como nos disseram. A gente não sabe qual escolher e passamos por alguns. Os nossos preferidos foram o Parque Forestal e o Parque Quinta NormalO primeiro, tem um dos acessosem frente ao Museu Nacional de Bellas Artes e é uma delicinha. Todo mundo jogado no chão nesse período, espetáculos teatrais acontecendo, grupos dançando ali e aqui. É menor, tem a famosa Fuente Alemana e muito agradável mesmo. E claro, com árvores centenárias e cheio de cassolo <3

Já o Quinta Normal é bem grande, mais antigo e ainda tem dentro e em seus arredores cinco museus, lagos e o que achei é que o Quinta é bem democrático, mais frequentado e cheios de atividades por todos os lados, como teatro infantil, ateliê de pintura ao ar livre e mais.

MUSEUS

Foi uma delícia sair e um museu passear pelo parque, ir em outro, voltar a outra parte do parque e assim passeamos bastante por lá e por mais de uma vez. Vimos todos os museus, mas entramos primeiro no Museu Nacional de História Natural. A entrada é gratuita, o museu super bem cuidado, amplo, com muita informação sobre tudo que envolve a natureza do Chile, América do Sul e do planeta. Modelos de animais, outros tantos embalsamos e empalhados, reprodução de habitat, da flora e muito mais. Foi um esquente pra entender  a outra etapa dessa viagem: O Atacama <3 Ah e a entrada é gratuita.

Outro que tivemos curiosidade foi o Museu Ferroviário. É um museu a céu aberto onde vinte peças estão reunidas, entre locomotivas e carros de transportes de passageiros do século passado. Mas não são quaisquer vinte peças. São vinte peças enoooormes, que podemos entrar, olhar por baixo e saber por onde elas passaram.

Eu adorei, adoro tudo que possa me aproximar do nosso passado assim, tão de perto. Lá por exemplo, soubemos como e por quem foram feitas as primeiras estradas de ferro que cortavam os Andes, como os processos econômicos e políticos, além do clima viabilizaram ou não esta nova etapa. Altamente interessante. Vimos a “La Transandina” locomotiva construída em 1909 na Inglaterra pra cruzar os Andes e fiquei imaginando o trabalho envolvido em toda essas etapas ao longos dos anos: entrar por entre os Andes, abrir caminho, construir, instalar e as primeiras locomotivas cheias de gente passando por esses lugares. Ai, eu achei bem emocionante… A entrada custou menos de 1000 pesos chilenos se não me engano.

Um outro museu que amamos e eu já saí do Brasil sabendo que íamos passar por lá era o museu das crianças, o Museu Artequin. “E porque menina, todo esse assanho pra conhecer esse museu?” você pode me perguntar. Porque ele me fez lembrar o universo do Castelo Rá-Ti-Bum 😀 e eis aqui uma ex-criança telespectadora assídua e fã da TV Cultura.

Sem contar na história: essa construção que abria o museu se chama Pabellón Paris (Ai, deus <3) e foi construído na França pra abrigar uma exposição sobre o Chile em 1889, depois disso, foi todo desmontado, trazido em um navio e reconstruído em Valparaíso. Depois, desmontado novamente e erguido aí, em Santiago. Imaginei tanta estrutura de ferro, vidro, molduras, madeira, sendo desmontada com uma casinha de brinquedo. Olha essa porta!

E por dentro… ui, meu coração…

Por dentro, cubos de madeira com frases de grandes artistas são ateliês de criação, vídeo ou oficinas interativas para as crianças. Por todo o museu há a réplica de obras de pintores e pintoras, escultores e escultoras e mais, mas tudo com uma linguagem acessível pra quem é pequeno, curiosa e informativa.

Mesmo quem não é pequeno aprende e bota a cabeça pra pensar. Voltei de lá com meu caderneta de bolsa cheia de nomes de artistas que não conhecia. Ah e os ateliês exibem as artes das crianças depois pelo museu. Como por exemplo, a obra de algum artista mirim, o “Batman do bairro” 😀

Além desses há o Museu de Ciências e Tecnologia, onde presenciamos uma performance e uma das sedes do Museu de Arte Contemporânea. A outra fica no Museu Nacional de Bellas Artes e também fizemos uma visita. Tudo isso em dias diferentes, em períodos diferentes dessa viagem de quase vinte dias pelo Chile. O Museu de Nacional de Bellas Artes é maravilhoso e abriga exposições permanentes, temporárias e históricas.

Foi lá que descobri e só faltei morrer de amor pelo trabalho da artista chilena Mónica Bengoa. Gente do céu! Que trabalho! Mostrei um monte de obra da exposição temporária dela a “Tentativa de Inventário” pelos stories no Instagram. Uma exposição retrospectiva sobre os 25 anos de trabalho dela. São técnicas envolvendo tudo que a gente gosta: papel, feltro, bordado, pintura e muito mais. E marido, babou por ver de perto o trabalho do fotógrafo Luis Poirot que gira em torno da memória e da fotografia, da direção de fotografia de palco, teatro… Tudo que marido pesquisa e ensina.

A nossa trajetória por museus em algumas viagens é sempre a maior de todas. A gente adora mesmo e pra mim é uma das melhores formas de se aproximar do lugar pra onde você vai, onde você está. Outro museu imperdível é o Museu de Arte Pré-Colombiana com detalhes inacreditáveis do Chile a da nossa América!

Mas eu começar a encerrar esse post pelo começo. É. Vou encerrando a jornada de museus pelo primeiro museu que fomos assim que chegamos à Santiago e o museu que eu indico e reforço a todo mundo: simplesmente vão ao Museu Da Memória E Dos Direitos Humanos além do Londres 38. É muito difícil não ir ao Chile e se recusar a saber de, um pouco mais de perto, sobre uma das ditaduras mais violentas da Américas do Sul. Não, eu não vou entrar em detalhes, mas eu digo que vi turistas brasileiros se recusando a entender esse fato. E, pasmem, com um certo ar de comemoração por ele ter existido. Eu sei, me parece alguém doente também.

O fato é que o museu é uma escola pra o mundo e pra gente aqui do Brasil. É algo que transcende o papel dele como monumento. Transpira, emana, evoca tudo de muito maior e de pior na gente. Nunca me emocionei tanto em um museu assim. E olha que passei horas dentro do Museu do Holocausto em Berlim, tão emocionante quanto, que também me revirou. Fiquei horas sem consegui falar uma palavra. Mas talvez por saber que o Chile tá perto. Tá perto de nós, tá perto de mim. Também é meu povo. É um espaço pra, além de contar essa história tão aterradora como a ditadura, esclarece, investiga, faz refletir, questionar e lembrar. É a memória como fundamento. Por isso entendi que parte do Chile faz questão de não esquecer esse passado. Parte. Porque ainda há quem apoie. Vide nós por aqui, pedindo o retorno da ditadura. Dá até vergonha entre meus dedos. É, como uma doença mesmo.

Não é permitido fotografar dentro do museu e eu não fiz questão nenhuma de burlar essa regra. Porque eu só queria olhar, ler, ouvir o que tinha pelos três andares desta enorme construção. Os vídeos, depoimentos, objetos pessoais das vítimas, objetos de tortura, áudios, escritos, fotos do golpe liderado pelo general Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973. Vi cartas de crianças endereçadas a esse homem pedindo os pais de volta, vi o vídeo do bombardeio ao La Moneda, ouvi o último discurso de Salvador Allende, vozes das vítimas, li, li e li muitas cartas, depoimentos, matérias exemplificando parte do jornalismo sujo (como a nossa parte) que mentia, encobria as verdades, documentos e mais depoimentos recuperados das famílias das vítimas, presos e presas, mulheres grávidas, estudantes e de tanta gente que morreu de forma atroz em 17 anos de militarismo no Chile, entre 1973 e 1990. Desde a fotógrafa queimada viva, às mulheres grávidas estupradas, às crianças que nunca foram encontradas. Milhares de pessoas que viviam em um Estado de Direito e foram, depois da instauração do militarismo e sua Junta de Governo privados de liberdade, dignidade, perseguidos, exilados, torturados ou “desaparecidos”. Censura, medo, repressão massiva, sem discriminação e que ultrapassou às barreiras do Chile.

A entrada é gratuita. O projeto arquitetônico é de dois arquitetos brasileiros e é incrível. O museu tem um acervo exemplar. Exemplar no sentido de que foram a fundo, expõem detalhes que deixa tudo muito às claras, jogando ainda mais luz à reflexão. É dividido em três andares, o primeiro “11 de setembro” o segundo “Verdade e Justiça” e o terceiro andar reservado às exposições temporárias, mostras. Ainda conta com um centro de documentação e de registros. Eu poderia escrever mais, mas mesmo assim não vai ser suficiente pra dizer sobre essa experiência. Eu só consigo me lembrar agora na sensação que tive ao parar um pouco pra respirar. Sentar, entender, pensar, me questionar. Pensar até no outro lado. Sim, eu até tentei, mas não deu. Não vai ter motivo, partido político, ideia, ideal, raiva, cegueira, intolerância, ignorância, ganância, nada que vai me fazer entender que o caminho dessas atrocidades é o correto. Só sentei em frente à instalação de velas que tem após as escadas ao chegar no segundo andar. E em frente à parede de vidro, diante de centenas de fotos das vítimas. O meu olhar se perdeu até o teto tentando ver aqueles rostos. Não deu. Eram muitos.

Foto: Blog Nós no Chile

Outra visita que nos faz refletir é o endereço Londres 38.  No primeiro post falei que ficamos hospedados bem ao lado desse que foi um centro clandestino de repressão e tortura utilizado pela Direção de Inteligência Nacional.

O imóvel era um dos centros onde militantes, membros confirmados e não confirmados de partidos de esquerda, homens e mulheres foram torturados de forma inimagináveis. Tudo era abafado por uma música ensurdecedora pra quem estava dentro do lugar. A visita é gratuita e a gente tem acesso a mais informações sobre esse período. Dá pra caminhar por todos os cômodos e é impossível não se sentir emocionada. Mais documentos e vídeos comprovando as alterações que a casa sofreu a fim de esconder e desaparecer com vestígios das vítimas.

Eu tentava, mas não conseguia imaginar o que essas pessoas viveram. Algumas, mulheres como eu. Com golpes,cortes, furos, socos, choques, queimaduras, sem comida, sem roupa, vendadas, caminhando por essas tábuas de madeira que rangem, que falam alto aos sons dos sapatos pesado como as botas, as paredes sujas, com marcas, o cheiro e a cor… Tentei, tentei, mas ainda assim não deve ser mesmo suficiente pra quem viveu violência assim.

Não só descobrimos depoimentos das vítimas, mas também de policiais e agentes que foram obrigados a participar das torturas dos organismos de repressão durante os 10 meses de atuação do Londres 38 e por mais tempo.

Quem está a frente desse espaço de memória é o Coletivo 38 que tem como membro, uma vítima da casa e que coordena o espaço. O seu marido desapareceu nesse mesmo lugar onde hoje segue a luta pela permanência, já que houve mais de uma tentativa de acabar com esse espaço de memória. Aqui há o site pra saber mais sobre as atividades, acervo, lutas do Londres 38.

Por onde passamos em Santiago há homenagens, lembranças e memórias relacionadas aos desaparecidos durante o regime. E isso eu achei grandioso no Chile, podíamos mesmo aprender o mesmo. Não é mórbido, não é viver de passado. É ter memória. É uma forma de resistir, é uma forma de reparar, de dignificar, de refletir e estimular o pensamento da tolerância e do respeito irrestrito e da dignidade à vida de qualquer pessoa. É pra que esses fatos não se repitam.

Pensei melhor. Não vou encerrar nosso grande circuito de museus com o exemplo da nossa estupidez e ganância como a ditadura. Vou concluir com um exemplo de resistência, criatividade, cultura e arte como Violeta Parra! Com o Museu Violeta Parra!

“Gracias a la vida, que me ha dado tanto…” diz aquela canção mundialmente famosa e cantada por Mercedes Sosa. Mas foi composta, em 1966 por Violeta Parra. Violeta Parra era multi. Pintava, costurava, bordava, esculpia, compunha, tocava, escrevia. E foi uma precursora do que muitos estudiosos consideram “Pintura Institiva” além de uma pesquisadora voraz da música folclórica chilena, tendo, durante tempos, percorrido o Chile em busca das músicas de raiz, do cancioneiro antigo e popular.

Violeta Parra foi uma filha da pobreza, das tragédias. Se você quiser conhecer um pouco mais sobre a vida dela, assista ao filme “Violeta foi para o céu” de narrativa densa, porém altamente emocionante. Parra nunca passou pela academia de artes, mas foi a primeira artista latino-americana a expor em Paris e em seus principais museus.

Em suas viagens aos interiores reuniu mais de três mil canções, versos, ritmos da cultura popular chilena e fez disso uma das bases pra sua arte. As outras eram suas dores, como a morte de sua bebê aos 3 anos, a ditadura, as questões sociais e injustiças, e o os questionamentos entre o divino e o terreno.

Violeta Parra gravou mais de trinta discos e se apresentou pelo mundo. Sonhava em criar um universidade popular com intuito de reunir artistas de diversas linguagens e montou uma tenda da comuna de La Reina onde viveu seus últimos anos e recebeu muita gente, afinal, o espaço tinha espaço pra cerca de mil pessoas. Em um domingo, Violeta se mata com um tiro aos 49 anos. Deixou arte pra o mundo, música, bordados, inspiração e cores. As cores de Parra.

O Museu Violeta Parra é lindo! Inspirador, poético, vivo, forte. E conta com ateliês pra oficinas manuais de artesanato, um dos universos da artista. Ali também podemos ouvir suas músicas com paciência. A decoração do lugar é mesmo encantadora, com tons crus, materiais rústicos, aparentes e com verde.

No próximo post, conto sobre o circuito que amamos: o da decoração, das feirinhas e bazares! E por fim, sobre a nossa passagem por lugares mágicos como o Atacama! E tem alguém indo pro Chile? Me contem o que acharam nos comentários, bora trocar uma ideia. Um beijo, gente!