31 de março de 2014

O que esperar quando você não estava esperando

em Bate-Papo

Aí que depois de vinte anos, mais gorda, flácida e com menos cabelo, eu tô na expectativa pra ver uma novela. A última vez que isso aconteceu eu tinha nove anos e a novela em questão era Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro. Às 18h eu marcava ponto em frente à TV, depois de voltar das aulas de piano. Chegava em casa, esperava por mainha que voltava do segundo turno de ensino numa escola da periferia. Ela corria pra cozinha, ligava o rádio pra pegar o final do “Momentos de Amor” programa que um locutor massa apresentava. Mais tarde seria amiga dele de profissão. Enquanto não chegava a hora da novela, ela fazia o café e fritava banana. Este aroma delicioso tomava conta de tudo e quando o sinto de novo é aquele aperto no peito de coisa boa, sabe? Um misto de fome, saudade e amor. Depois de tudo pronto, a gente corria pra ver Ruth escovando aquele cabelo dhyvo e Raquel arrastando a sandália pela casa com o típico batom vermelho vilã.

As outras duas novelas que ainda cheguei a ver alguns capítulos foram ” A Viagem” e “Renascer”, mas se me perguntar algo, não lembro quase nada. O desinteresse começou logo depois. Perdi totalmente a paciência de acompanhar as tramas, a rotina tinha mudado, mais cursos, mais estudos e minha atenção foram pras coisas que achava mais interessantes. Depois de anos tentei voltar a assistir, algumas das 20h, mas foi impossível, achava muita coisa maçante.

Longe de mim postar aqui uma baita avaliação sociológica, mas vejo a produção de uma telenovela como o maior espetáculo midíatico pra construções de valores e pra contextualizar. Sejam eles positivos ou não. Digo positivo, quando gera alto útil e relevante pra a esfera pública. Um exemplo é que ela, a novela, acaba dando o tom aos debates de forma ideológica e/ou política. É só lembrar da “Vale Tudo” que fez uma associação com a eleição de Fernando Collor e mais tarde, “Anos Rebeldes” também com uma associação, porém sobre o impeachment do mesmo político. Bem como “Malu Mulher” que retratou muito bem as lutas femininas na década de 70.

A novela tá no imaginário nacional e pra mim é um ótimo exemplo do “Agenda Setting”, a teoria de comunicação que afirma que a mídia define o que vai ser pauta entre as comunidades. Isso acontece por exemplo, no momento em que transforma dramas particulares em públicos. Ajuda a promover esses discursos intermináveis para os quais eu não tenho o menor saco, mas que movimenta a coisa, movimenta. O problema é que com o progresso social, a teledramaturgia acompanhou tudo com muito exagero, na minha opinião. Beirando à caricatura. E o público, muitas vezes, não faz questão de ser cidadão e questionador. Vira apenas um consumidor disso, assumindo uma postura acomodada e acrítica.

Reflexões em tom sério de lado, neamm? Ok.  Aí vem a vinheta de “Meu Pedacinho de Chão” e faz meu olho brilhar. Chamou minha atenção pela proposta. Escrita por Benedito Ruy Barbosa, é a primeira novela em tom de fábula da televisão brasileira segundo os produtores.

Novela3

Vai ser uma releitura e não um remake, da versão exibida simultaneamente na década de 70 pela TV Cultura e Rede Globo. Releitura porque muita coisa promete ser diferente da novela anterior, como cenário e figurino. A antiga, com 185 capítulos, era uma produção de cunho educacional, alertando e debatendo os problemas enfrentados pelo homem do campo não só na esfera agrícola, mas como educacional, sanitária e econômica. Renée de Vielmond e Maurício do Valle faziam parte do corpo de atores.

Novela1Foto daqui

Já o novo folhetim, vem com a direção de Luiz Fernando Carvalho que por mais uma vez faz parceria com Benedio Ruy Barbosa. Começa diferente, com 100 capítulos e apenas 20 atores. Assume o tom lúdico, fantástico, lírico, mais artístico, menos industrial como essas sequências enfadonhas de Helenas. Repara o figurino!

Novela4Foto: Divulgação/Rede Globo

A direção de arte e cenário com misturas de cores lindas, delicadeza, animais mecânicos, detalhes artesanais (como árvores em crochet!) é assinado por um trio de profissionais experientes e marcados pela criatividade. Entre eles, o Artista Plástico e Diretor de Arte, Raimundo Rodriguez. Lindeza sem fim!! (E eu quero essa balança amarela aí da foto abaixo. Sério, se não morro em 3, 2…)

Novela2Foto: Divulgação/Rede Globo

O Raimundo Rodriguez tem um trabalho sensacional dentro e fora das telas. Na janela televisiva cito alguns exemplos pra mostrar o que ele faz: ” A Pedra do Reino”, “Hoje é dia de Maria” e “Capitu”. Lembram? Produções maravilhosas. No blog dele dá pra acompanhar mais sobre o que ele tem feito. Tô fã e não nego. Raimundo, meu querido, meu coração já é teu!

Raimundo RodriguezFoto daqui

Além do Raimundo, a novela conta com o cenógrafo Keller Veiga e o produtor de arte, Márcio Cortez. Ainnn gente, adoro uma “subversão” desse jeito, rompendo com essas linguagens que me dão a maior leseira. Mas mesmo assim, deve ter ainda o debate social que a primeira versão teve, abordando o latifúndio, o poder e opressão. Quanto ao elenco, tenho muita preguiça de debater sobre isso, pois meus ídolos nessa área vão contra o senso comum, mas um Osmar Prado e um Irandhir Santos deixa tudo mais saboroso, nomes incríveis.

Novela5Foto: Divulgação/Rede Globo

O Fagundes pra mim é um saco sem fim, me julguem. Eu tô é curiosa pra ver o Gabriel Sater atuando. Charada do post: com uma viola na mão, ele é filho de??? Rá! Almir Sater, povo! O músico atua pela primeira vez e tem tudo pra virar um novo galã, com direito a zói azul e cabelo grande, na maior pegada gato do mato. Ai, ai…

“Meu Pedacinho de Chão” estreia dia 7 de abril, honrando o horário das 18h com esta nova proposta. Vou tentar mesmo parar pra  ver este pedacinho de arte em plena TV aberta. Vou fingir que tenho nove anos, lembrar do cheirinho de banana frita e assim espero chegar até o último capítulo.

Bjbj, amorecos!