22 maio 2014
Viagem

Ocupação Zuzu Angel

Era domingo das mães e eu tava longe da minha. Resolvi então ver a Ocupação Zuzu Angel promovida pelo Itaú Cultural na avenida Paulista. Fui conhecer mais sobre a “mãe coragem”. O título sugerido por Zuenir Ventura não foi nem é dado em vão à estilista Zuleika Angel ou Zuzu Angel. Natural de Curvelo, Minas Gerais, Zuzu Angel se muda ainda jovem para Belo Horizonte. Se casa e segue para Salvador, onde tem o primeiro filho, Stuart Angel. Depois daí fixa moradia com sua família no Rio de Janeiro onde rapidamente evolui na costura. Depois do divórcio, Zuzu continua a se mostrar estilista talentosa e diferenciada. Em alguns anos se tornou a primeira e principal estilista que traduziu a brasilidade na moda, legitimando seu estilo criativo, único, transgressor.

Eu poderia falar mais sobre a moda autenticamente brasileira que Zuzu fez, pois admiro demais toda a história dela e melhor ainda é saber que existiram mulheres assim. Gosto de moda, da moda do meu país, mas tem gente, muita gente mais especializada pra falar disso aqui. O que queria compartilhar aqui é que a minha admiração por ela aumentou de forma gigantesca depois de ver de perto parte do seu trabalho e também dizer (nenhuma novidade) que quão hipócrita é o nosso país. Absurdamente hipócrita. Isso também daria posts e mais posts.

No primeiro piso da Ocupação, itens da decoração usados nos próprios desfiles de Zuzu. Como as nuvens em acrílico e tecidos com estampas criadas por ela,  por exemplo. Nesta sala, assim que a gente chegava, era apresentado uma linha do tempo com todos os fatos sobre Zuzu, sua família e a história do país. Tudo datado. Enquanto a gente se perdia lendo cada detalhe da vida dela e da barbárie que ela e tantas famílias foram vítimas, atrizes vestidas com reproduções das peças de Zuzu liam em voz alta, trechos das cartas que ela mandou pra diversos nomes do poder à procura do filho. De arrepiar.

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Quando você termina de ler, você tem mais noção de como a vida dela foi uma batalha de várias formas: com a inserção num mercado machista e retrógrado, com sua afirmação nele, com o sumiço do corpo do primogênito, com a morte dele e em seguida da esposa dele pela ditadura, com a coragem de relacionar moda e mensagem e de fazer dela instrumento de questionamento e transformação social. Saí deste piso com a emoção já nas alturas. Choro na garganta.

Subi pro segundo andar e de cara fui recebida por uma réplica do letreiro usados em seus desfiles e fotos pessoais de Zuzu. A Zuzu mãe, dengada pela filha, à vontade com o filho, alegre, jovem. Ali também tinha alguns acessórios de costura e da marca que ela assumira após o luto pela morte do Stuart. Zuzu assinava com outra logomarca, mas mudou pra o anjinho depois da tragédia causada pelo golpe militar.

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O salão era grande, com muitos exemplos do que Zuzu fazia. Aí já dava pra ver como ela era organizada. Tudo minunciosamente explicado, detalhado, catalogado. Desde os desenhos aos moldes e recortes servidos pra inspirar.

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Zuzu Angel era extremamente inteligente e habilidosa. Sem contar no equilíbrio pra lidar com tantos problemas. Na Ocupação, o visitante recebia uma revista criada exclusivamente pro evento. Uma revista chamada “Zuleika” com textos excelentes de estudiosos, historiadores, jornalistas, familiares e outros estilitas. Ia lendo enquanto passeava por ali e refletia admirada como Zuzu mesmo sabendo o que acontecera com o seu filho e o de outras mães, conseguiu levar o seu trabalho adiante e de forma tão marcante.

Mesmo assim, Zuzu criou roupas lindas que fizeram dela a precursora da moda  brasileira e não da moda no brasil, o que é diferente. Segundo João Fraga, pesquisador e professor de História da Moda, a primeira é autêntica criada aqui dentro com referências de cultura e identidade nacionais. Já a moda no Brasil é tudo que usamos ou usávamos em nosso território, sem depender se o padrão estético é importado ou não.

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Depois da prisão do filho Stuart, Zuzu realizava desfiles com modelos vestidas de preto com crucifixos e anjos ou canhões militares estampados. Inquieta, Zuzu criou estampas e desenvolveu tecidos próprios, sempre tendo os anjinhos como tema principal. Chegou a fazer protótipos de bonecas, as “Zuleikinhas” com a cara do país, cheias de regionalismos, saias rodadas.

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Além dos vestidos, fotos, vídeos e até o laudo do IML sobre o acidente de Zuzu a gente pode ter contato. Em uma parte recuada do salão foi exposto um exemplo do ateliê, com botões, máquinas, passamanarias diversas e outros acessórios. O público ficava bem de perto com cada detalhe.

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Durante cinco longos anos desde a prisão do filho, Zuzu Angel não parou um segundo de buscar a verdade sobre toda a sordidez dos esquemas da ditadura. A confirmação da morte do primogênito chegou por meio de uma carta de um ex-guerrilheiro que presenciou a tortura de Stuart. Depois disso, a luta de Zuzu seguiu para saber onde estaria o corpo do filho e ter o direito de enterrá-lo. Fez o que pode em nome da sua dor e da de inúmeras famílias que tiveram a vida transformada pela crueldade do golpe. O assassinato do Stuart foi um “ritual de martírio atroz” diz Zuenir Ventura que só de imaginar, já dilacera o coração de quem não viveu esta dor. Imagina quem viveu? Você se ver sentando pra desenhar, criar, desenvolver detalhes de peças que deviam sair belas, com esta dor no peito?

Zuzu Angel morreu em 1976 num acidente de carro mais que suspeito. Disseram que ela dormiu ao volante depois de um mal súbito. O capotamento do carro no túnel dois irmãos no Rio de Janeiro no dia 14 de abril calou mais uma voz que bradava contra à podridão e injustiça do golpe “político”. Como o nosso país é mestre em fazer grandes merdas e tentar se redimir décadas depois sem muito efeito, em 1998 o governo reconheceu junto à Comissão dos Desaparecidos Políticos que a morte de Zuzu Angel não foi um acidente e sim, um assassinato.

Depois disso, a família de Zuzu segue firme no propósito de manter toda a história da estilista viva. Há 20 anos criaram o IZA – Instituto Zuzu Angel, primeiro curso superior de moda do Rio de Janeiro e o terceiro do país. Trabalha hoje não só com moda, mas em várias áreas de criação e formou centenas de profissionais. O IZA não deixou a filosofia de Zuzu morrer, que é estimular a brasilidade. É ver a nação, tão injusta com ela, como fonte inesgotável de inspiração.

Ainda ali neste recuo do salão onde ficaram expostos acessórios e máquinas de Zuzu Angel, algumas paredes foram forradas por papéis com estampas criadas por ela. Em uma, os visitantes podiam deixar recados ou escrever o que viesse à cabeça.

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Meu nó de choro na garganta desatou sem muito esforço com um em especial:

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Antes, hoje e sempre, feliz dia das mães, Zuzu.

 


Uma resposta para “Ocupação Zuzu Angel”

  1. Yara Aguilar disse:

    Só tu muié,pra trazer tanta coisa linda e cheia de historia pra gente ver ….
    Bijú!

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