20 de agosto de 2014

Parte I – De onde vem?

em Bate-Papo

A bendita inspiração? A ideia, o start? Há algum tempo conversando com marido, esse foi o principal assunto. Como nasce a inspiração pra algo? O papo foi super viajado, pra não dizer lisérgico, mas me inundou de lembranças boas e me fez perceber que tudo, tudo me influencia, me inspira. E de uma hora pra outra a ideia brota, te assalta e não sai mais da cabeça.

Meu ídolo muso maior, Lenine, em seu último trabalho “Chão” te pergunta na penúltima faixa: ” De onde vem a canção, quando já nasce pronta? Pra onde vai a canção, depois do som consumado, onde ela existiria?” É viagem demais minha ou você também aí se questiona como as coisas nascem dentro da gente e depois de pensadas, criadas, executadas, onde isso fica dentro de nós? Tem como melhorar, criar algo novo em cima disso que já foi pensado? Tô profunda, confesso. Citei Lenine de propósito, não só pela faixa em questão, mas pra dizer que se tudo me inspira, a música sem dúvida tem enorme responsabilidade e me ajuda a buscar respostas para estas perguntas.

Um dos produtos criados por mim pra a lojinha virtual que lancei no início da semana foi baseado numa longa história que vivi há anos, ainda quando estudante de jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Senta que lá vem história.

Pra o trabalho de conclusão de curso, ou TCC, nos eram oferecidas duas opções de projeto, uma monografia ou um vídeo documentário. Titia aqui curiosa pela história do outro optou pelo doc e foi uma das melhores escolhas da minha vida. Depois de mais de um semestre fuçando ali e aqui, meu objeto de pesquisa pro documentário foi uma comunidade ribeirinha aqui do interior, chamada Monte Branco. Queria fazer algo que tivesse relação com um rio importante pra região sudoeste da Bahia, o Rio das Contas. Minha mãe viveu parte da sua infância à beira dele, meu pai também, logo, a relação era puramente de afeto e de resgate das memórias. Na verdade, nem sabia sobre a comunidade e sua história. O projeto inicial era saber como a construção da barragem  neste rio influenciou a vida de quem morava nas cidades. Um quê muito mais econômico e ambiental, falando da degradação quando o rio entra na cidade, poluição, assoreamento e outras questões. Nada antropológico.

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Mas com as pesquisas, descobri que uma comunidade ribeirinha, bem distante da cidade claro, foi inundada pra construir a tal barragem. Bem como no filme “Narradores de Javé”. E olha que nem sabia do que o filme se tratava quando comecei este projeto. Sabendo disso, meu foco mudou totalmente e este passou a ser meu TCC: um documentário sobre esta inundação, sobre este processo, pra onde estas famílias foram depois disso e daí descobri Monte Branco, um lugarejo pequeno que foi recriado depois que a água cobriu tudo.

Antes, nas primeiras décadas de 1900 a comunidade era maior, mais próspera, era ponto de parada pra os tropeiros vindos da Chapada Diamantina, logo, tinha estrutura pra receber estes viajantes e famílias. Além do pequeno comércio, os moradores viviam da pesca e da plantação. Mas depois de interesses maiores, lucro, contratos, poder, mentiras, governo, poder público, a construção da barragem foi aprovada. Após alguns anos de construção, chegou o dia de soltar a água. A comunidade que ficasse no caminho seria inundada e segundo os moradores, apenas um único aviso foi feito previamente pelo órgão responsável à época, sem mais explicações. Eis que no meio da noite, em meio às luzes dos candeeiros, as famílias do lugar perceberam água em seus pés. Aos poucos, ainda à noite, ela foi subindo e eles entenderam que precisavam salvar o que podiam. Buscaram, um ajudando o outro, as serras mais altas.

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Conheci dona Maria Rosa em 2005, quando meu doc foi feito. Ela, nesta época com 96 anos, lembra que era adolescente quando a água invadiu a noite. Cega dos dois olhos depois de acidentes domésticos, para saber onde estava o nível da água, precisava agachar e encostar a lateral do rosto nas paredes e chão. E foi com este método de medição que ela conseguiu recolher algumas coisas.

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No dia seguinte, tudo estava coberto.

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Os mais idosos, hoje te apontam onde cada casinha ou estabelecimento ficava, mesmo você só enxergando água. Daí fui atrás dessa gente sobrevivente. Fui ver onde estavam, como se reergueram depois disso, o que levaram. Fiquei por dias com eles. Crianças, adultos e idosos me receberam calorosamente e abraçaram o projeto. A escolinha da comunidade me serviu de estadia. Almoçava com eles, tomava banho de rio, lavava roupa no mesmo e vivi assim por lá. Pra onde ia, era cercada por pequeninos curiosos em ver câmera, fios, cabos, microfone e luz  carregados por uma moça conversadeira cheia de perguntas e boa ouvinte.

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A prosa tá boa? Mas eu volto amanhã pra  amarrar esta história e te contar como ela foi parar na lojinha. Te prometo que ela não é sem pé nem cabeça, mas que é toda coração, ô se é.

Bjbj!