21 de agosto de 2014

Parte II – Pra onde vai?

em Bate-Papo

Acho que não vai. Ela, a inspiração, fica. Tudo que a gente acumula, aprende fica guardado, intrínseco, se confunde e mistura já com nossas vidas. E ainda, é útil demais e pra sempre. Só tive esta resposta depois de muito pensar sobre a conversa e perguntas que me fiz no início do post anterior. Clica aqui e dá uma lida antes pra não se perder nesta continuação. Seguindo…

O pré-roteiro do meu doc de final de curso já tinha sido construído, mas óbvio que fui mudando de acordo com o que ouvia em Monte Branco. Durante os dias em que fiquei lá, passei por cada casinha dos mais velhos, ouvi as lembranças dos adultos e quis saber sobre o que pensavam os pequenos. Saber como a vida tinha seguido depois de algo tão avassalador. Ser acordado no meio da noite, num total breu, com a água chegando pra inundar toda sua história até ali. Você se imagina no lugar deles?

Eles trataram de recomeçar rapidamente. Construíram novas casinhas coloridas em meio às serras verdes, uma escola primária e no topo mais alto, a igrejinha. Ao longo do tempo, luz elétrica e outras facilidades vieram também. Em meio à correria da inundação, salvaram a grande cruz de madeira, hoje fincada no centro da comunidade. Os moradores mais antigos foram se adaptando às novas funções que eles mesmos se deram. Um pequena sociedade organizada. Além da dona Maria Rosa, conheci Dona Judite, uma fofa! Miudinha, queria levar pra mim. Ela tinha se tornado responsável por cuidar do novo cemitério do lugar depois da barragem. Também era artesã e fazia artigos em palha pra vender na feira da cidade. O marido, Seu Tranquilino era o repórter do lugar. Qualquer informação era com ele. Lembrava de tudo e foi um excelente guia pro roteiro. “Sei não, pergunta pra Tranquilino” era o que mais ouvia.

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Conheci Dona Rosa, a parteira,. Trouxe ao mundo boa parte dos jovens que vivem por ali. E Maria da Onça, que não viveu a inundação e se tornou agente de saúde. Ia de casa em casa alertando sobre os cuidados com a saúde, tratamento da água, limpeza dos alimentos e da comunidade. É famosa no lugar por ter botado uma onça pra correr. Segundo ela, topou com uma onça quando cortava lenha, mas o susto foi tão grande que a onça teve mais medo dela que ela do pobre animal.

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Conheci a senhora brava que metia medo nos meninos. Dizendo eles que em certas noites ela virava um bicho valente! Pura lenda… Mas não vou mentir que foi dureza conseguir uma foto com ela. Não sei. Só sei que foi assim 😀 E encontrei Dona Ana que também metia medo na garotada, mas com bicho de verdade, afinal, recolhia e cuidava de vários cachorros que apareciam, desde os pequenos até os maiores que davam carreira em menino de perna fina.

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Vivi e ouvi tudo isso por dias seguidos com eles. Registrei a missa, a rotina, a preparação da comida, a limpeza do cemitério, o trabalho na plantação. Claro que com toda a limitação técnica de uma aprendiz e com equipamentos semi profissionais. O banho de rio no fim da tarde era uma farra. Toda a menina ia. E depois, todo mundo limpo ia se sujar de novo no terreno em frente à escola, no bom e velho vôlei de bola murcha.

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Dinha, Mateus, Du e um bando de outros assistentes queridos eu ganhei. Diiizzz se não é pra morrer de amores com essa bando de menino com calção furado e remelento? ADHOROO <3 <3

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E foi em uma dessas ajudas que Mateus corria pra me entregar um cabo pra câmera. Passando pelo cruzeiro, gritei pra que ele parasse. Dei um clique e este virou a capa do documentário.

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Pra deixar o lugar foi um suplício. Fui embora soluçando que nem criança. Depois de alguns meses e da defesa do TCC, voltei pra exibir o que foi feito. Foi um festa na comunidade. Foram mais de 3 sessões seguidas em lugares diferentes. A escolinha lotou e a única casa com aparelho de DVD e antena parabólica também. Os meninos estavam levemente maiores, notei. E ver o rosto de cada um, principalmente dos mais velhos foi lindo. Ver a reação de quem pela primeira vez na vida, se viu numa tela, se ouviu. Me derreti, aliás, me desidratei com os agradecimentos. Saber que os ajudei a contar esta história, que ela está registrada e mais que isso, que alguém os ouviu foi a melhor recompensa, melhor que a nota 10 da banca avaliadora.

Voltei a Monte Branco mais vezes depois, em visitas rápidas e aos poucos ia notando as diferenças do lugar. Os mais velhos muito abatidos, alguns já haviam morrido. Os meninos crescendo, os jovens indo embora e os adultos sem perspectivas. O lugar sendo tomado por tecnologias, cultura de massa, violência e senti como se aquele lugar, antes protegido pela tempo, já tinha sido contaminado pelo mundo de fora. Lamentei tanto…

A trilha sonora do doc foi composta por marido e um amigo. Um instrumental delicado que permeou toda a história. Mas durante este período, duas canções que sempre me faziam lembrar esta experiência eram as cantadas por Ceumar, de nomes “Lá” e “Pecadinhos”. Ouvia-as e viajava pra o lugarejo Monte Branco que conheci. Te falei que a música me inspirava muito.

Toda esta história, longa que só e a lembrança do que diz a canção vieram parar numa peça alegre e colorida pra lojinha, pequena e assim, cheia de afetos. Quando olhei o tecido em especial pra criá-la, meu coração se inundou na hora de tudo isso em questão de segundos. Era como se tivesse voltado a Monte Branco. Ao meu Monte Branco. As serras verdes, o rio correndo, as casinhas, a igreja e a paz daquele lugar, tudo nesta criação têxtil. Não tive dúvida de como a pecinha sairia e saiu. Uma forma de manter isso vivo e ainda deixar o lar mais enfeitado.

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O Divino Lugarejo é pra lembrar dessa gente que compõe a maior parte do nosso país. Gente que tá escondida em lugarejos, em comunidades, fica lá onde o fim termina e você nem imagina. Essa gente, que é de uma riqueza sem tamanho. Que viveram num templo de paz, mas que aprenderam a lidar com a cobiça dos grandes. Que erraram sim, cometeram pecadinhos também, mas que de tão pequenininhos, não fazem mal à ninguém. Da gente tão querida por mim que sempre que posso, lembro dela e recomeço.

Os divinos estão na lojinha pra quem quiser ter este mimo. Só é clicar aqui. E  aproveito pra te mostrar as canções que te falei. Espero que de alguma forma, elas e toda esta história, te inspire quando flores te faltarem e sobrarem espinhos. Meu beijo!