07 jan 2014
Bate-Papo

Por trás daquela casa colorida

Vim cumprir minha promessa, hein? Disse que ia contar quem mais eu encontrei por esses dias na Chapada Diamantina. Ó, na verdade, é tanta gente massa que daria pra trocentas postagens, mas todas estão no coração e algumas vieram parar aqui. A gente passou em Igatu, também conhecida como a cidade de pedra. Na verdade é distrito de Andaraí. O lugar é uma delícia, umas das mais “roots”  da Chapada. A cidade toda mantém as marcas do século XIX, do ciclo do diamante na região e é de uma lindeza que só. O nome vem do Tupi e quer dizer “Rio bom”. E põe bom nisso!

Daí, eu e marido paramos pra almoçar e no caminho, bati logo o olho numa plaquinha diferente. Da janela vi um monte de linha, bolsa pendurada e tal…  pirei. Mas a fome era tão grande que segurei minha curiosidade, enchi a pança e voltei. Entrei no lugar, uma casa que pra mim só era ponto comercial. Encontrei a Rita, uma jovem cineasta. Falei da proposta de uma entrevista, fotos, enfim, um bate papo e ela gostou. Rita saiu pro fundo de um corredor e voltou com uma jovem senhora. Era a Juliana, mãe dela e dona do espaço. Tudo ali nasceu das mãos dela e era a pessoa ideal pra falar comigo. Eu fingi controle, mas tava doida pra dizer um “Ebaaaa” bem grande, bater palminha e apertar o braço dela que nem menino.

Juliana tava toda ressabiada no início. Mas né por nada não, se tem uma coisa que sei fazer no jornalismo, é bater papo com o outro. Antes de tudo, eu gosto de ouvir. Muito. E assim vou pegando detalhe, contando os meus também, trocando opiniões e no final, com boa parte dos entrevistados, a sensação é de que nos conhecemos há tempos. Tanto que com isso nasceram lindas amizades.

A plaquinha que chamava minha atenção era essa e a mulher da janela tinha uma história pra contar.

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Prosa vai prosa vem, descobri que Juliana é de Salvador. Morou boa parte da vida com a filha na capital. Começou a costurar por volta dos 25 anos na preparação pro carnaval. Ela conta que diferente de muitas crianças, a Rita pedia fantasias muito autênticas e encontrá-las nos comércio à época era difícil. Uma das primeiras, foi a de Rambo. A menininha foi toda vestida do veterano de guerra mais famoso do cinema e se acabou de brincar nas ruas da Salvador de antes. A fantasia chamou a atenção e pra surgir encomendas foi rapidinho.

A costura de carnaval começou a virar negócio sério e as encomendas aumentavam. Costura virou trabalho e desde então, Juliana não parou mais. Mas quem vive em cidade grande sabe como o esquema é complicado muitas vezes, han? Pode ter o que for, oferecer as melhores opções, informações, serviços, lazer, educação, mas junto com isso, o caos é presença constante em alguns lugares. Fora que  ajuda a adoecer a mente dos mais sensíveis.

Com Juliana foi assim. Ela fez o caminho inverso. Voltou pro interior. Há cinco anos, no limite, trocou um baita emprego pela tranquilidade e realização. Ela veio se encontrar nesse lugarzinho com cerca de 500 habitantes. Um recomeço enorme. Ela conta que teve receio, claro, muita gente da família não apoiou a ideia, outras sim, mas a decisão foi tomada e ela mesma reconhece o bem que fez a si. A vida mudou, valores antigos foram embora, outros vieram, novas pessoas, histórias. Nova vida, com mais simplicidade e paz.

Hoje o Ateliê Filha da Mãe é o trabalho de Juliana. A Rita, que continua em Salvador, traz os materiais pra mãe. Almofadas, vestidos… tudo é costurado por ela, cheio de cor e cuidado.

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Boa parte das bolsas, bastante procuradas pelos turistas, é feita com material reaproveitado, como lonas, plástico e sobras de tecido. Ah, se liga no gancho pra pendurar o trabalho… <3 <3

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A decoração do lugar só é o reflexo da paz, fofura, delicadeza que é Juliana e sua vida ali. Natureza e lembranças se misturam em cada detalhe.

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A gente já tinha conversado tanto que ela me chamou pra cozinha… e chamou pra cozinha, já viu, né? Já é de casa! #felizzzz. Ela foi me mostrando várias coisinhas que consertou, pintou, costurou. Todo o lugar tinha mais beleza com o sua dedicação. A casa era enorme, com um quintal cheio de planta e um pé de Carambola! Ainn, a gente sai de bico “travoso” que nem quando chupa Umbu demais. Antes de chegar à cozinha, acompanha a ordem das fotos: na sala tem um lustre feito por ela com sobras de tubos de linha, de tecidos e passamanarias diversas, lindo!! Nada de estante pra mostruário, uma escada produzida por um amigo resolve a questão com muito mais charme. Já no corredor, o sobrinho que treina Judô, doou várias faixas pra tia que transformou tudo nesse tapete de babar! E a fofura da cortina e também do tapete do banheiro? Ah, gente, meu coração pifa assim, vai…

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E a cozinha que tem forno de barro decorado com giz?

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A casa ainda tem um andar. Subindo a escada em madeira, a primeira parede é perfeita. Um tecido lindo e cadeirinha amarela. Muito amor!

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Lá em cima foi feita uma Hospedaria. Um lugar despojado pra quem quer curtir a Chapada. Nada de cama. Quem chega por aqui descansa nos colchões cobertos por muita cor, tira um cochilo no tapete doado por uma amiga e pega no sono protegido dos mosquitos.

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Já na saída, garrei amor em outros dois detalhes: a moldura do espelho feita com flores secas e o recado que todos os dias ela lê pra si mesma. O recado escrito com um hidrocor de forma bem simples, numa folha de papel ofício, faz a gente também nunca esquecer dessa história de recomeço. Juliana é mais alguém que entra pra minha lista de admiração. Que faz a gente acreditar que dá tempo sim, correr atrás do que faz a gente feliz. E muitas vezes a dona felicidade tá atrás de uma porta pequena, colorida e em uma rua de pedra.

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Obrigada, Juliana querida!

 

 

 

 


15 respostas para “Por trás daquela casa colorida”

  1. Ana Luiza Dias disse:

    Ain que coisa linda, Baby! Quero aquela rede pra vida! E aquela bolsa com detalhe amarelo tb hahha

  2. Ana Claudite Pina Costa disse:

    Leitura gostosa. História linda. Decoração “demorrer”.

  3. Marli Lopes disse:

    Que delicia, me encanto com suas lindas Histórias. Parabéns.

  4. Yara Aguilar disse:

    O que é isso?! Morrí! Tudo muito lindo, colorido e autêntico! Fiquei louquinha nas estampas das roupas das araras,e aquele forno?! “Minina” é muita belezura junta num lugar só! Beijos!

  5. Daniela Mangabeira disse:

    Olá querida!!! Nos cruzamos em Mucugê, no retorno da viagem…agora descubro que passamos por esta Vila linda…e visitamos o mesmo espaço!!!!! PARABÉNS PELA REPORTAGEM E SENSIBILIDADE!!!!! TD LINDO!!!!HISTÓRIA LINDA E LUGAR LINDO!

  6. Erica Daniela disse:

    Que lindo!Estou amando acompanhar seu site. bjs

    • Eva Mota disse:

      Danizinha, que bom! Eu fico mto feliz com gente assim como você, com esse olhar profundo acompanhando meu trabalho. Também acompanho o seu. A cada dia, mais lindo. Um beijo grande!!

  7. Naira Oliveira disse:

    Será minha primeira parada assim que chegar em Igatú. Breve!!Linda materia. <3

  8. Priscila Leal disse:

    To apaixonada!!!! Que amor, que coisa linda, ai que tudooo!!!! rsrsrsrs Amei, to super encantada com Juliana e com vc tb amiga!!! Vou ficar aqui!!! bjooo

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