28 de agosto de 2014

Pra lá das telas

Em Bate-Papo

Há algum tempo, lá na Fanpage dele, um comentário me chamou a atenção. Era alguém dizendo, com muita sensatez, que diferente das outras, a novela “Meu Pedacinho de Chão” deveria ser vista. É que tantas outras, se você apenas ouvi-las, não faz diferença, você entende e até adivinha o que vai vir em seguida. Mas o folhetim das 18h não. Era obrigatório parar para prestar atenção em cada detalhe, sejam estéticos ou sonoros, pois eles são inúmeros, interessantes e lindos. Quase tudo isso se deve ao artista plástico Raimundo Rodriguez de quem me tornei fã e não nego, já falei dele aqui.

 

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Foto: Luisa Gomes Cardoso

Foram quase quatro meses de exibição e há algumas semanas, o horário das 18h já foi tomado por outra novela. Ô pena 🙁 Bem que “Meu Pedacinho de Chão” poderia ficar mais um tempinho no ar, ofertando ao público aquela história que vai do lúdico ao verossímil com delicadeza, cheia de arte, criatividade, fábula, ousadia, belas atuações e porque não dizer, performances, trilha sonora autêntica, figurino genial e, claro, cenografia de deixar qualquer um sem palavras.

 

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Foto: Divulgação

Tudo isso formou um conjunto impecável que me fez parar em frente à TV sempre que possível depois de 20 anos sem ver novelas. Sei do bom roteiro, das atuações, da direção e tudo mais, mas se nada disso tivesse uma linda representação visual e estética como teve, como seria? Quén, quén, quénnnn….

O cenário foi todo construído do modo a evitar gravação em estúdio praticamente, ou seja, quase todas as casas não eram só fachadas, mas estruturas mesmo, onde tomadas eram feitas nas partes internas. 120 mil flores de plástico e de papel compunham os jardins da novela, as árvores receberam crochê. Foram 28 edificações construídas com 20 toneladas de latas, baseadas no trabalho dos anos 2000 do Raimundo, o “Latifúndios”. Latas de diferentes tamanhos e cores, foram abertas, prensadas, amassadas com precisão e qualidade, desvendando nuances e degradês belíssimos para o revestimento das construções.

 

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Foto: Blog Raimundo Rodriguez

 

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Imagem: Starte

 

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Imagem: Starte

 

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Foto: Raimundo Rodriguez

 

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Foto: Raimundo Rodriguez

Perguntei a ele se há algum desafio em adaptar um trabalho de exposição para um cenário de novela e ele disse “Não faço distinção de veículo, pode ser cinema, teatro, galeria, museu ou tevê, o que me interessa é o espaço de pesquisa e desenvolvimento da obra. Só aceito trabalhos onde eu possa ter liberdade de criação” me contou o artista. Clica aqui pra ver só um pouquinho disso que a gente fala , por meio de um  programa que adoro, o Starte, comandado pela Bianca Ramoneda.

É curioso saber também que artistas como ele, recebem um espaço grande, zerado, puro e a partir do nada cria algo tão grandioso e forte em cima daquilo. E o que é impressionante: sem projeto algum. A base do trabalho é construída por meio de muito estudo, pesquisa e a partir daí tudo é feito.

 

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Foto: Luisa Gomes Cardoso

Raimundo Rodriguez é do Ceará. Nasceu em 1963 seis anos depois foi para o Rio de Janeiro onde vive até hoje. A sua principal fonte de inspiração é a arte popular brasileira e isso é reconhecível no que ele faz. Bem como as inspirações neodadaístas, dadaístas, neorrealistas e de pop arte. Pra quem gosta ou estuda a História da Arte, na novela dá pra ter noção das inspirações impressionistas, como as cores de Monet e Van Gogh (muso meu <3)

Neste final de semana o Raimundo ministra um oficina gratuita, a “Latifúndios de papel” como parte das comemorações de aniversário do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro. E eu não tô lá! Por isso soooofro nessa vida! Ok, sem dramas. E no dia 13 de setembro ele inaugura no mesmo espaço, a exposição “Latifúndios” mostrando as evoluções deste trabalho que começou há alguns anos. E você acha que para por aí? “Tenho compromissos agendados até 2015” diz Raimundo. Que bom, seu moço! Quem ganha com sua agenda cheia somos nós, afinal, é arte pura e das boas pra ver por muito tempo.

Obrigada por conversar comigo, Raimundo. E agradeço à Chandra também, assessora atenciosa e paciente assim, nunca vi! 😀 Meu beijo!