6 de dezembro de 2013

Senta que lá vem história…

Em Artes Manuais

Cês já leram o “O porquê” ? Ó, então vou explicar. Lá faço referência a minha vó Dete, colocando-a no lugar de origem, que realmente era dela. Ela deu início a tudo. Não só à família de mainha, mas também a toda história das artes manuais entre filhos e filhas e por consequência, netas. Meu avô Osmar também contribuiu e muito, já que era costureiro de artigos de couro. Os dois eram da Chapada Diamantina, essa região linda aqui da Bahia. Muito pobres e já com as primeiras filhas, minha tia Jove e minha mãe bebê de um mês de nascida, decidiram melhorar de vida descendo pro sudoeste do estado. Vieram trazidos por dois jeguinhos, únicos animais que sobraram. Minha mãe veio bebê no colo de vovó, sendo ninada pelo balanço do lombo do animal. Vovô e vovó desceram pra cidade de Jequié, terra do poeta Wally Salomão para construírem sua vida juntos. Foi lá que também nasci. Se instalaram numa casinha miúda que tá de pé até hoje. Era perto da feira e também do rio, duas fontes de renda importantes na época. Vovó tratou de aprender a costurar couro e a vender os artigos na feira. Mais tarde teria condições de comprar uma máquina de costura. Trabalhou até o último dia no ateliê dele, um quartinho super pequeno ao lado da casa.

 

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Vovó aprendeu a costurar olhando uma vizinha mais velha. E as suas primeiras clientes foram as mulheres da rua de trás. Também conhecidas por mulheres de vida fácil. Essa relação ia sendo construída com respeito e carinho entre clientes e costureira. Depois daí foi rápido conseguir mais clientes, o talento era muito claro. Vovó se especializou, aprendeu a costurar outros tipos de tecido, roupa de cama, mesa, além de inúmeros bordados. Vovô também, passou das sandálias, para bolsas, gibões e selas. E foi assim que sustentaram mais de dez filhos.  Enfrentaram seca, pobreza, limitações diárias de quem vive no interior de uma região que podia ser infinitamente melhor.

Meu avó morreu novo, aos 68 por complicações causadas por uma diabetes. Isso há 26 anos.  E minha vozinha, há pouco tempo, cerca de três meses e meio. Na semana do meu aniversário, início de setembro, ela ficou debilitada demais, corpo cansado, saúde frágil e aos 85 anos, descansou. Daí me fez refletir tudo isso e o começo da história. Fiquei por uns dias pensando que tinha perdido toda minha referência. Ela ensinou minha mãe a costurar, meus tios também.

Depois do luto por vovó Dete, percebi que a lição foi bem passada e que no meu coração só cabia gratidão, amor e aprendizado. Eu já tinha alguns trabalhinhos dela aqui, mas de um bordado em ponto cruz que guardava em uma caixa, com muito carinho, resolvi fazer uma lembrança permanente dela. Um quadrinho. O projeto foi escolhido pela Dani, do Banana Craft, como um dos destaques do grupo no Flickr. Fiquei besta de feliz, neamm? Mas ó que coisa simples, genten: peguei uma moldura bem velha que minha mãe me deu e fiz. O papel Paraná manchado do tempo deu todo um charme. Nem mexi na moldura. Já tinha verniz, vidro e também preguinhos. Aproveitei tudo. Peguei o bordado, cortei retangular. Desfie as bordas pra dá um bossa, mas só um pouco pra não perder o desenho. Em seguida passei cola diluída com um pouco de água por cima do bordado já fixando-o no papel.Esperei secar por uma hora e só! Montei o quadro encaixando os pregos nos mesmos lugares onde estavam.

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Agora toda lição de amor ensinada por minha vó Dete (ou vovó patinha como a chamava) tá sempre por perto. Um beijo, vovinha do meu coração. Saudade eterna! Bjbj!

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